O cão e o catador de papelão

08/12/16 - 16h45 | Dablio Vasconcelos

O cão e o catador de papelão O cão Cabeção e seu amigo catador Cornélio Alves Foto: Reprodução / Veja

Uma das cenas mais presentes no cotidiano das grandes cidades é a do catador de papelão acompanhado de um (ou até mais de um) amigo cão.

A razão é muito simples: além de preencher o imenso vazio - que eu acredito ser enorme - da vida de um morador de rua, o cão também atua como guardião de sua carroça (seu único bem e fonte de renda) enquanto ele, o catador, dorme sob alguma marquise de algum prédio imponente.

É impressionante a lealdade desses animais para com seus tutores que vivem às margens da sociedade, miseráveis seres que, no maior dos otimismos, apenas "sobrevivem" nas metrópoles e que, inevitavelmente, compõem o cenário urbano do nosso país.

Ora, para aquele pobre cão, que jamais frequentou uma pet shop na vida, não importa o valor que aquele homem tenha pra sociedade, não importa suas roupas velhas e rasgadas, não importa sua barba enorme e suja, não importa seu hálito de cachaça barata, não importa a falta de comida. O cão está ali, ao seu lado, sempre ao seu lado, fiel, implacável, amigo...

Certamente, aquele pobre e indefeso animal também se encontrava nas mesmas condições do morador de rua: abandonado, esquecido, ignorado. O encontro com alguém que lhe deu um pouco de carinho e atenção foi suficiente para retribuir com tamanha fidelidade.

Um tem ao outro. Um consola o outro. Um aquece o outro. Um protege o outro...

Fico imaginando que tipo de conversa existe entre o homem e o cão, enquanto estão deitados na grama da praça ou no frio concreto das calçadas, dividindo um resto de comida que encontraram na lixeira da esquina. Fico pensando em quantos lamentos podem existir entre os latidos e sussurros daqueles dois amigos.

O mundo é mesmo muito estranho... 

Por mais que tentemos entender o verdadeiro sentido da vida, jamais entenderemos essas diferenças entre os homens e essas igualdades entre os animais.

E assim a vida segue. 

Afinal de contas, é apenas mais um infeliz cão abandonado passeando com seu pobre e miserável catador de papelão pelas ruas da cidade.

É isso!

Dablio Vasconcelos

Dablio Vasconcelos

Publicitário, músico, atua na área de produção de festivais de cinema, louco por animais e assina a coluna Muito Animal.